terça-feira, 16 de junho de 2020

CURUPIRA


 Quão escuro era o caminho que traçara, totalmente acidentado, com árvores antigas que serpenteavam suas raízes em meio a estrada coberta de mato alto ao alcance dos joelhos. Era difícil enxergar o que resultava sempre em um ou outro passo em falso.
 Ela era acostumada a se aventurar por atalhos improvisados, mesmo no poente, mas esta trilha em especial, era sufocante. O ambiente impunha uma tenção, própria do silêncio esmagador que aquele lugar lhe reservou. Pior que a calmaria suspeita, era, se em súbito um barulho rompesse o sossego revelando algo à espreita.
 A pobre garota, nunca antes se perdera, talvez isso justifique seu medo. Na verdade, era totalmente aceitável tal reação, pois paranoia é algo comum a aqueles que são privados dos sentidos, ainda mais se estiverem onde ela estava, cheia de possíveis ameaças. Deus sabe o quão silenciosa são as onças e sorrateiras as serpentes, sem contar o perigo que era cair em um valado ou pantanal.
 Ela não ficou parada, continuou andando até ver a frente, o contorno das árvores em meio a escuridão. Lucy cogitou a ideia de ficar por ali mesmo, porém mudou de opinião num instante ao perceber que uma das silhuetas se movera! Seria o vento a balançar os galhos? Outra caminhou para o fundo, onde a pouquíssima luz não alcançava. 
 Pálida, se virou para correr, mas estava cercada pelo que deviria ser a floresta. A pobre coitada foi cambaleando em direção a uma das silhuetas e a tocou trêmula, sentindo a áspera casca e acima a folhagem.
  Ouviu alguns estalos secos e em seguida um baque abafado. Lucy tateou o chão em busca de algo com que se defender, mas em vão.  Então se virou e gritou a fim de acabar com a ansiedade e descobrir quem era o desgraçado a lhe perturbar.
  Ao longe ouviu algo repetindo o grito que soltara, como se fosse ela mesmo a repetir. O topo das árvores remexeram, assustando a jovem que correu para o centro do círculo, rodeado de vultos, que a cada momento ficava menor. Um assovio alto a fez tampar os ouvidos e uma dor de cabeça a fez chegar ao ápice da insanidade e após isso tudo, desmaiou.
No dia seguinte acordou na mata, apavorada, mas bastou olhar a direita para ver sua casa bem ali, a alguns metros. Lucy ficou se questionando quanto a tudo isso, se teria sido um sonho, quando um assovio a fez estremecer e correr de volta para o lar.

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