O presente indesejado
Havia uma carta
sobre um caixote industrial de madeira empoeirado e lacrado. Nele estava
escrito:
“Olá caros amigos, talvez não saibam
quem eu seja, mas eu sei quem são vocês. Já faz um tempo que venho os
observando amar e desamar tantas coisas quanto lembro. Aqui, frente essa pesada
porta, bonita e inútil, deixo o meu herdeiro a quem espero que amem tanto
quanto amaram as outras coisas, que pelas mãos dele serão levadas. Não pelas
minhas, espero!!!
Virei busca-lo quando necessário, para
enfim me aposentar. Tratem bem o meu garoto e o mantenham longe de outras crianças
para não pegar alguma doença desses remelentos cheios de sangue!!!
Atenciosamente morte. ”
O casal de
idosos, donos do orfanato se chocou ao ler a carta, pensando ter sido escrita
por algum gozador. Ao abrir a caixa com um pé de cabra, chocaram-se ao ver de fato uma criança,
que chorou em seguida graças a luz que insidio sobre ela.
– Coitadinho.
– Mais uma cria
com que se preocupar! – Resmungou a velha.
– Melhor
conosco do que com o doido que escreveu essas disparidades! – Retrucou.
Os dois frente
a caixa foram fisgados de repente pelos olhos azuis que de tão escuros
pareciam negros. Enquanto um se via atolado neles, como um frango na fossa das
marianas, o outro se via refletido, como se fixado no topo da abóboda celeste
durante uma noite de beleza sombria.
– Se livra
dele! Não quero esse monstrinho dentro da nossa casa! – Disse ela, assustada.
– Não. Você não
vê o que eu vejo, né?
– Eu vejo um
demônio! O filho da morte! Meu Deus, é mesmo o filho da morte!
– Eu vejo um
par de olhinhos que por alguma razão me transparece altivez, segurança... Altivez
é mesmo a palavra certa?
– Do que você
tá falando?
O velho ignorou
a pergunta e apelou para o ponto fraco da esposa.
– Pelo amor de
Deus, ele é uma criança! Você abandonaria uma criança!? Esqueceu do nosso
juramento!?
Tudo o que ela
mais queria era se ver longe daqueles olhos medonhos! Mas o dono deles não
tinha culpa e ela não ousaria arranca-los. “Que merda” pensou.
– Tá! Tudo bem.
– Disse ela a contragosto – Mas é você que vai cuidar dessa coisa, não eu!
– Minha querida,
eu te amo tanto, mas não lhe perdoaria se fizesse algo contra esse menino!
– Eu não faria,
mesmo se fosse o que você quisesse! Só tira ele da minha vista, por favor.
Ela tampou o
rosto do menino com um lenço, ficando um pouco mais tranquila, assim como o
bebê que cessou o choro mais esquisito que já vira. A idosa diz:
– Acho que ele
não gosta da luz.
– Ele não
gosta. – Constatou o velho.