sexta-feira, 7 de agosto de 2020

BELAS HISTÓRIAS DE UM GAROTO ESPECIAL (Conto I)

 

O presente indesejado

Havia uma carta sobre um caixote industrial de madeira empoeirado e lacrado. Nele estava escrito:

“Olá caros amigos, talvez não saibam quem eu seja, mas eu sei quem são vocês. Já faz um tempo que venho os observando amar e desamar tantas coisas quanto lembro. Aqui, frente essa pesada porta, bonita e inútil, deixo o meu herdeiro a quem espero que amem tanto quanto amaram as outras coisas, que pelas mãos dele serão levadas. Não pelas minhas, espero!!! 

Virei busca-lo quando necessário, para enfim me aposentar. Tratem bem o meu garoto e o mantenham longe de outras crianças para não pegar alguma doença desses remelentos cheios de sangue!!!

Atenciosamente morte. ”

O casal de idosos, donos do orfanato se chocou ao ler a carta, pensando ter sido escrita por algum gozador. Ao abrir a caixa com um pé de cabra, chocaram-se ao ver de fato uma criança, que chorou  em seguida graças a luz que insidio sobre ela.

– Coitadinho.  

– Mais uma cria com que se preocupar! – Resmungou a velha.

– Melhor conosco do que com o doido que escreveu essas disparidades! – Retrucou.

Os dois frente a caixa foram fisgados de repente pelos olhos azuis que de tão escuros pareciam negros. Enquanto um se via atolado neles, como um frango na fossa das marianas, o outro se via refletido, como se fixado no topo da abóboda celeste durante uma noite de beleza sombria.

– Se livra dele! Não quero esse monstrinho dentro da nossa casa! – Disse ela, assustada.

– Não. Você não vê o que eu vejo, né?

– Eu vejo um demônio! O filho da morte! Meu Deus, é mesmo o filho da morte!

– Eu vejo um par de olhinhos que por alguma razão me transparece altivez, segurança... Altivez é mesmo a palavra certa?

– Do que você tá falando?

O velho ignorou a pergunta e apelou para o ponto fraco da esposa.

– Pelo amor de Deus, ele é uma criança! Você abandonaria uma criança!? Esqueceu do nosso juramento!?

Tudo o que ela mais queria era se ver longe daqueles olhos medonhos! Mas o dono deles não tinha culpa e ela não ousaria arranca-los. “Que merda” pensou.

– Tá! Tudo bem. – Disse ela a contragosto – Mas é você que vai cuidar dessa coisa, não eu!

– Minha querida, eu te amo tanto, mas não lhe perdoaria se fizesse algo contra esse menino!

– Eu não faria, mesmo se fosse o que você quisesse! Só tira ele da minha vista, por favor.

Ela tampou o rosto do menino com um lenço, ficando um pouco mais tranquila, assim como o bebê que cessou o choro mais esquisito que já vira. A idosa diz:

– Acho que ele não gosta da luz.

– Ele não gosta.  Constatou o velho.